(Texto colaborativo com Caio Araujo e Letícia Flávia. Nomes e lugares são meramente ilustrativos)
Ao entrar no apartamento 203, Augusto Lacerda bate a porta fazendo tremer os vidros das suas janelas. São 23h10 e acaba de voltar de uma entrevista frustrada com um deputado. Deveria fazer um perfil do sujeito para o jornal no qual escreve aos domingos - depois de malogradas tentativas de incursão no meio literário. Sua Senhoria fora bastante monossilábico e um tanto quanto cínico em relação às suas respostas. O comportamento do político foi de dar azia em sal de frutas.
Para acalmar os ânimos serve-se de uísque 12 anos com dois cubos de gelo. Presente de uma amiga que o visitava vez ou outra.
Sobre o sofá de chenille jaz uma longínqua edição do Diário da Manhã. Já sentado no móvel vagabundo, Lacerda folheia o periódico e encontra um de seus primeiros perfis. “Entrevistas boas são como a que fiz com o Valdivino Nunes, aquele músico, que me contou até o que eu não queria saber em uma hora e meia. Basicamente o deixei falando e anotei tudo num guardanapo de pano, que guardo até hoje”, relembra.
Quando está em casa, Lacerda segue um ritual para a criação de seus textos. Além do uísque sobre a mesa de mogno, acende um charuto panatela curto, corta-o displicentemente, traz um cinzeiro para perto, pega o bloco de anotações, relembra dos pormenores, tira uma pilha de folhas da gaveta e datilografa silenciosamente suas primeiras linhas, em uma antiquada e ruidosa máquina de escrever. Às vezes, coloca um vinil de Miles Davis, ou Etta James, para tornar o ambiente propício à sua arte, digamos.
De repente, Lacerda parece transmutar-se em Hemingway, e as matérias fluem entre seus dedos com aparente facilidade. “O jornalismo tem dessas coisas de linha de produção, em que você tem que demonstrar resultados constantemente. Mas eu não consigo me desvencilhar dessa visão antiga, romântica e boêmia da profissão”, admite.
Entretanto, escrever não é uma tarefa tão simples. Lacerda se esforça para burilar cada trecho e fazer-se entendido pelo leitor comum, sem deixar escapar a essência dos fatos, nem deturpar as falas alheias. Quando se sente bloqueado, recorre a livros de Gay Talese ou Truman Capote. “O que Euclides da Cunha faria numa situação dessas?”, pergunta-se em alguns pontos-chave complicados. Mas tudo se acerta e acaba bem no fim das cinco laudas. Nem sempre para o entrevistado, como o deputado cujo nome escrito na última linha rendeu-lhe um processo judicial por calúnia e difamação, além do titulo de ex-deputado, pela repercussão da matéria.
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sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
quarta-feira, 20 de agosto de 2008
Álcool 'torna as pessoas mais bonitas', indica estudo
Depois de uns copos de cerveja, as pessoas realmente começam a achar os outros mais bonitos, segundo um estudo feito por cientistas da Universidade de Bristol, na Grã-Bretanha, e publicado na revista "New Scientist". A equipe liderada por Marcus Munafò, do Departamento de Psicologia Experimental, conduziu uma experiência com 84 alunos heterossexuais, pedindo que eles consumissem uma bebida não-alcoólica com sabor de limão ou uma bebida alcoólica com um sabor semelhante. A quantidade de álcool variava de acordo com o indivíduo, mas foi calculada para ter o efeito que um copo de 250 ml de vinho teria em uma pessoa de 70 kg - ou seja, o suficiente para deixar parte dos alunos levemente embriagados. Quinze minutos depois, os pesquisadores mostraram fotografias aos participantes de pessoas da sua idade, de ambos os sexos. Tanto os homens como as mulheres que haviam consumido álcool avaliaram as pessoas retratadas como mais atraentes do que os participantes do grupo de controle (que tinham tomado a bebida sem álcool).
Da BBC, via portal G1 (, acesso em 19 ago 2008).
Depois de uns copos de cerveja, as pessoas realmente começam a achar os outros mais bonitos, segundo um estudo feito por cientistas da Universidade de Bristol, na Grã-Bretanha, e publicado na revista "New Scientist". A equipe liderada por Marcus Munafò, do Departamento de Psicologia Experimental, conduziu uma experiência com 84 alunos heterossexuais, pedindo que eles consumissem uma bebida não-alcoólica com sabor de limão ou uma bebida alcoólica com um sabor semelhante. A quantidade de álcool variava de acordo com o indivíduo, mas foi calculada para ter o efeito que um copo de 250 ml de vinho teria em uma pessoa de 70 kg - ou seja, o suficiente para deixar parte dos alunos levemente embriagados. Quinze minutos depois, os pesquisadores mostraram fotografias aos participantes de pessoas da sua idade, de ambos os sexos. Tanto os homens como as mulheres que haviam consumido álcool avaliaram as pessoas retratadas como mais atraentes do que os participantes do grupo de controle (que tinham tomado a bebida sem álcool).
Da BBC, via portal G1 (
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MUDANÇA DE COMPORTAMENTO
“É incrível como este boteco anda mal freqüentado”, exclama Dionísio para seus três amigos. São 19h de uma sexta-feira, e o bar da região central da cidade está lotado, como de praxe. Após a dura jornada de trabalho, os colegas de Dionísio costumam reunir-se no local para tomar as merecidas primeiras cinco ou dez cervejas do fim de semana. Libertar-se do estresse agregado durante os quatro dias anteriores é a lei, assim como flertar com todos os pares interessantes de pernas no perímetro de um quilômetro.
Dionísio, no entanto, é o único dos quatro que possui carro, e acaba servindo de chofer para todos após a sessão alcoólica. Já foi de se alterar bastante, de consumir tudo o que fosse possível e se esbaldar na libertinagem, mas depois da agravação da Lei Seca, baixou o facho. Tudo o que faltava era perder a carteira de habilitação numa farra qualquer e ter de voltar a pé para casa. Ou pior, de ônibus. Mas, incrivelmente, seu repentino senso de cuidado também acabou por mexer com a sua libido.
“Cara, é impressão minha ou sempre teve esse bando de gente feia neste bar?”, indaga aos colegas de trabalho. “É incrível como não há ninguém que valha a pena abordar por aqui!”. E, após deixar os amigos, volta para casa, silencioso e desacompanhado. As responsabilidades mudam, e os critérios, também.
terça-feira, 22 de abril de 2008
Você.
Você
é brasa que arde sob a pele.
Junto a você, fico ofegante,
mal consigo respirar.
Meu corpo se entorpece,
não tenho cabeça pra mais nada.
O tempo pára, e eu só consigo te sentir.
Tudo por causa de você.
Sua gripe safada.
é brasa que arde sob a pele.
Junto a você, fico ofegante,
mal consigo respirar.
Meu corpo se entorpece,
não tenho cabeça pra mais nada.
O tempo pára, e eu só consigo te sentir.
Tudo por causa de você.
Sua gripe safada.
quarta-feira, 16 de abril de 2008
Senhas
São dez pras cinco da tarde e eu arrumo as senhas para o atendimento dos clientes do dia seguinte. Todas emaranhadas numa pequena caixa de papel. É quase sempre nesse horário que me lembro de organizá-las. Misturam-se vontade de sair o mais rápido possível e ponderação sobre adiar as tarefas de amanhã. Meu ímpeto principal é o de deixar as coisas inacabadas, esparsas, jogadas por aí. É assim com muitas coisas. O amanhã, ora essa, não existe: é apenas um conceito pra permitir que o homem seja coerente, de alguma forma. Mesmo que seja na sua incoerência.
Oitenta e três, oitenta e dois, oitenta, setenta e sete, vinte e cinco. Junto tudo em pequenos montes, pra depois colocar tudo no devido lugar, em ordem crescente. Lembro-me da época em que roubaram a senha um. Quando o primeiro da fila, às sete da manhã, pegava a senha dois, exclamava: "nossa, que eficiência! o atendimento mal começou e uma pessoa já concluiu seu processo inteiro!". Quer dizer, devia exclamar. Eu exclamaria. Whatever.
Enquanto isso, os funcionários todos já se reúnem em volta do relógio de ponto. Eu os observo com o canto dos olhos, murmurando qualquer coisa dos Eurythmics. I should've known better, but I trusted you at first. I should've known better, but I get what I deserve, uo-uo-uo-uou. Mas quando o sinal toca, o amanhã pouco importa mesmo. As senhas ficam lá, do modo que estiverem. Afinal, a ordem dos fatores não muda o resultado da operação mesmo.
Oitenta e três, oitenta e dois, oitenta, setenta e sete, vinte e cinco. Junto tudo em pequenos montes, pra depois colocar tudo no devido lugar, em ordem crescente. Lembro-me da época em que roubaram a senha um. Quando o primeiro da fila, às sete da manhã, pegava a senha dois, exclamava: "nossa, que eficiência! o atendimento mal começou e uma pessoa já concluiu seu processo inteiro!". Quer dizer, devia exclamar. Eu exclamaria. Whatever.
Enquanto isso, os funcionários todos já se reúnem em volta do relógio de ponto. Eu os observo com o canto dos olhos, murmurando qualquer coisa dos Eurythmics. I should've known better, but I trusted you at first. I should've known better, but I get what I deserve, uo-uo-uo-uou. Mas quando o sinal toca, o amanhã pouco importa mesmo. As senhas ficam lá, do modo que estiverem. Afinal, a ordem dos fatores não muda o resultado da operação mesmo.
Águas barrentas
Quando o choque veio, não havia me preparado. De repente, me vi lutando para respirar entre os escombros de uma vida até então muito distante de mim. Como reação, veio o instinto (auto)destruidor. Aquela dor necessária precisava ser impedida. Uma anestesia ou somatização qualquer, por favor.
Mas, após atingir o fundo, consegui enxergar que estava me afogando em um lago que dava pé. Apenas não enxergava porque eram águas turvas, barrentas.
A solução? Primeiramente, seria boiar, me entregando ao acaso. Ou então me erguer e aguardar pacientemente o bote salva-vidas.
E não é que ele parece vir?
Mas, após atingir o fundo, consegui enxergar que estava me afogando em um lago que dava pé. Apenas não enxergava porque eram águas turvas, barrentas.
A solução? Primeiramente, seria boiar, me entregando ao acaso. Ou então me erguer e aguardar pacientemente o bote salva-vidas.
E não é que ele parece vir?
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terça-feira, 15 de abril de 2008
No início, era o verbo.
Foda-se, eu não agüento, ele disse. E tudo se transformou ao redor. Pela primeira vez, ele admitia que não era nenhum ser sobrenatural que agüenta todo o peso do mundo com um sorriso no rosto, e passava a aparentar ser uma pessoa normal. Como ele de fato era. Os céus se abriram com sua palavra libertadora. Foda-se, não é nada de mais, não é nem mesmo um palavrão. É a mera concretização do desapego. Não se pode ter o controle de tudo, afinal. E quem foi mesmo quem disse a ele que deveria ser este Grande Responsável por Tudo? Deste momento em diante, ele foi outro. Limites estabelecidos, seus fantasmas se foram. Se um verbo o tornou livre, porque outros termos não ajudariam?
Afinal, o vai-à-puta-que-o-pariu e o vai-tomar-no-olho-do-seu-cu não devem ter sido criados à toa.
Afinal, o vai-à-puta-que-o-pariu e o vai-tomar-no-olho-do-seu-cu não devem ter sido criados à toa.
Arquetípico
Na rua deserta, passo pelo muro com o reboco caído que um dia já simbolizou minha dor. Ainda tenho a foto. Minhas mãos longas tocam a ferida da parede como se fossem a minha própria. Nada de físico, apenas abstração. A baixa resolução do arquivo dava conta do resto. Hoje, já não me disse mais nada. É apenas um muro maltratado numa rua suja e esquisita. Tocá-lo não é mais nada de arquetípico. Deixar de fazê-lo é apenas sensato. E eu sigo em frente. Não tão resoluto, mas resiliente.
Peixes em cativeiro
Plantado neste escritório, quero desaparecer. Brota em mim um desejo intenso de sumir por entre as letras de todos os protocolos e planilhas. Quero enfiar a cabeça na camisa social e partir para uma existência paralela, como no clipe dos Chemical Brothers. Mas, neste momento, sou Vishnu, criando tudo com meus múltiplos braços e sendo sugado por todos aqueles que anseiam, simultaneamente, por ócio e remuneração. Cínicos. Tédio, raiva contida e autoindulgência se misturam: isso é o pior de ter lua e marte em Peixes, em conjunção. E, claro, passar dez horas do meu dia enfurnado aqui. No fim, tudo se resume a uma frustração esperançosa.
Esperançosa em dar o fora, claro.
Esperançosa em dar o fora, claro.
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